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Realismo
poético do Rio de Janeiro: sécs. XIX e XX Gustavo Dall'ara e Jorge Eduardo
A força da pintura realista, bem como seu calcanhar de Aquiles, estão
na sua própria objetividade. Com uma "cozinha" quase sempre discreta,
mantém, por assim dizer, o espectador a distancia, ao contrário da pintura,
que a partir do Impressionismo convidava-o a terminar o quadro com ela.
Mas a obstinação com que o pintor realista conduz sua objetividade do
geral ao particular, o respeito quase fetichista pelos caprichos do real,
o apego ao detalhe acabam por envolver o espectador (quando se defronta
com um quadro de verdade), que então pode penetrar por este espelho que
é o quadro (como nos espelhos dos filmes de Cocteau) no mundo mágico da
pintura realista.
Os pintores alemães da Nova Objetividade (Neue Sachlichkeit), rejeitando
o subjetivismo descabelado do Expressionismo, e acusando-o de todos os
males na derrota da Alemanha dos anos 20, tomavam como modelo a realidade
nua e crua da rua, e se auto-intitulavam de realistas mágicos.
Magia... Esse poder de demiurgos, dos santos e criadores, de embaralhar
a realidade, de dotar as coisas e os seres com o dom da ubiqüidade...
John Estes, o maior dos hiperrealistas americanos, é um mágico em compor
reflexos, brincar com vidros e espelhos, com o que tonteia o espectador,
ora chamando-o a realidade do seu quadro, ora devolvendo-o ao cotidiano
da rua. Estas reflexões para continuar na metáfora vieram à tona diante
dos quadros de Gustavo Dall'Ara e Jorge Eduardo, que, distanciados no
tempo (quase cem anos), tem o mesmo amor pelo real e a mesma paixão pelo
modelo exclusivo: a cidade do Rio de Janeiro.
Dall'Ara chegou aqui jovem ainda; veneziano de origem, como seus conterrâneos
Canaletto e Belloto, tinha o mesmo gosto pelos muros bem aprumados, no
surpreender os seres nas ruas e nas praças de suas urbes. Como Canaletto,
preferia dirigir seu olhar qual um binóculo para uma calha, um papel jogado
na rua, um vendedor ambulante passando diante de um muro cortado pela
luz do meio-dia. Indiferente aos críticos, que achavam sua pintura "documentária
e fria (sem emoções)".
Essa luz que envolvia também seus colegas fotógrafos, com os quais certamente
convivia nas redações dos jornais, que publicavam constantemente suas
ilustrações e desenhos.
Na virada do século, a arte fotográfica encontra seu ponto mais alto em
Marc Ferrez, e a Fotografia em geral já faz parte do cotidiano carioca.
Se bem que não haja fatos concretos do envolvimento de Dall'Ara com a
fotografia, é difícil rejeitar essa influencia, quando é flagrante a visão
fotográfica em alguns de seus quadros.
Aliás, desde o nascimento da Fotografia, os pintores acompanharam de perto
seus passos. O mais célebre quadro de Delacroix, "Liberdade guiando o
povo", é um flagrante fotográfico.
Hoje em dia, vagar pelo que sobrou do velho Rio (pelo Corredor Cultural),
é como acompanhar Dall'Ara, e refazer com ele o percurso de seus quadros.
Jorge Eduardo recolhe os destroços do mundo que Dall'Ara pintou. Uma janela,
uma porta salva da destruição e olvido, são para ele objetos- fetiche,
pontos de partida que a intuição do artista abrirá para outros olhos e
para outros céus. Para captar esses novos espaços, ele usa uma câmara
fotográfica: mas ela não compete com o pintor, ela é o seu Shiva, "o terceiro
olho dos hindus", com que o pintor controla a objetividade dos seus próprios
olhos, um instrumento como o lápis e o pincel, uma comodidade como a pintura
a óleo dos irmãos Van Eyck. Realista, e "pour cause", ele sabe brincar
com a luz do sol no ramo das amendoeiras, mesmo que os seus reflexos caiam
em caprichosos ornatos logo abaixo na capota dos carros! Para Léger, um
bulldozer (trator) amarelo brilhando ao sol era mais belo que a arte dos
museus! Na noite quente do Rio, no topo dos edifícios os anúncios repetem
seus mergulhos coloridos nas águas plácidas da Guanabara. Como uma canção
de bossa nova, o Rio de Jorge Eduardo é belo...
Outro dia, passando pelo seu atelier, um novo quadro me chamou a atenção.
Uma grande e frondosa árvore por trás da murada da rua da Glória. O ritmo
do balaústre era como que interrompido pela tela deixada em branco, e
ele me disse que assim ficará, como uma imaginária estátua que os ramos
dos oitis pareciam coroar, desenhando ao mesmo tempo o contorno do Grande
Ausente, que continuará vivo enquanto existir um pedaço do muro, uma grade,
uma pedra desta cidade: Pedro Nava.
Jean Boghici
Rio de Janeiro, 23 de novembro de 1984
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