Um quadro, normalmente, fica na parede. Os quadros desta exposição, quando não estão no teto, atravessam as paredes. Pode ver. Invadem o espaço, projetam-se para além da dimensão vertical, num tempo que não é o presente.

E eu acho que sei porque:

Estes quadros são portas e janelas recuperadas carinhosamente, trave por trave, e que um dia se abriram para outras paisagens, em um tempo diferente.

Eu gostei de acompanhar o arquiteto Jorge Eduardo numa de suas expedições aos depósitos de demolições, onde apodrecem retalhos da memória arquitetônica, pedaços carcomidos e empilhados da nossa incultura!

Depois eu vi o carpinteiro Jorge Eduardo limpar uma por uma dessas peças, raspando camada por camada de tinta. Vi-o cheirar e alisar a madeira, e ouvi quando falava da beleza das fibras, do aroma agradável da resina e da graça singela dos cortes e recortes, cavados por outros carpinteiros, que já devem estar na oficina de São José, por trás das nuvens que vejo através da clarabóia.

Porém o melhor foi assistir ao pintor Jorge Eduardo fazer a terra e as arvores sobre a terra, a água o ar e a luz, com uns pinceiszinhos finíssimos, lambendo detalhe por detalhe, dono de incrível pontaria, em busca de uma expressão precisa de cor e forma, de peso e tamanho, de espaço e... é bom parar antes que isso se transforme numa critica.

A critica deve ser a ultima coisa a tocar numa obra de arte, porque a arte não é feita para ela. Não sou critico. Estou aqui porque dividimos o atelier e somos amigos.

Então, aprendi na convivência do dia a dia a ver por que estes quadros estão além das paredes. É porque ha um bocado de trabalho e de amor neles.

Humberto Borges
31 de Maio, 1984.