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A Inteligência do Olhar O Jorge Eduardo que Jean Boghici me apresentou, há quase 15 anos, era um pintor hiper-realista que, a partir de suas próprias fotos, apresentava paisagens esplêndidas do Rio, emolduradas com velhas janelas. Esse enquadramento estrutural da imagem acentuava o impacto global, ressaltando determinados aspectos fragmentários, “como para fazer perdurar o prazer do olhar”, observei na época. Guardei a maravilhosa lembrança de uma obra de 1985, Arco-íris em Ipanema, da exposição Lumière et magie de Rio na Galeria 1900-2000. O montante curvo de uma janela ogival segue o percur-so do arco-íris sobre o horizonte do oceano... O realismo desaguava sobre a magia fascinante da natureza. Jorge Eduardo apresenta hoje, em Paris, no stand de Jean Boghici, na FIAC – Foire Internationale d’Art Moderne et Contemporain, uma série de aquarelas de formato médio (40 x 28cm). São paisagens e cenas urbanas de vários lugares do Brasil, que “contam” a saga vital de sua enorme diversidade. Nelas encontramos o mesmo denominador comum, essa “inteligência do olhar” que chamou a atenção do Presidente Mitterand naquela época: o instinto panorâmico, o sentido do espaço, a preocupação com o detalhe significativo ou com o contraste estrutural. As aquarelas de Jorge Eduardo estabelecem um diálogo visual com o espectador. Se o olhar de seu autor mostra-se tão falante, é que ele expressa a verdade do ser, sua formação e experiência vital: este pintor autodidata já foi arquiteto e depois publicitário, e as imagens por ele criadas são ao mesmo tempo muito precisamente estruturadas e, de imediato, impressionantes; a sua espetaculosidade não é de ordem anedótica, mas sim monumental. Coqueiro Curioso representa um coqueiro que cresce junto ao ângulo de um flanco de um antigo forte português à beira-mar, em Itamaracá, Pernambuco. A silhueta da árvore, oblíqua em relação ao muro, se perfila no azul límpido do céu, sob a massa branca das nuvens que pontua a linha do horizonte de areia fina. Os diferentes elementos da paisagem estão determinados segundo uma perfeita acuidade analítica, mostrando até a presença minúscula do banhista, dos guarda-sóis e do barco na praia. Há muito a dizer sobre esses detalhes, fundos e distâncias que percebemos como um segundo grau da percepção, um resquício da sensação visual, que atestam a qualidade específica da obra de Jorge Eduardo: o total desabrochar de um incomensurável desejo do olhar. E, nesse desejo, a maestria estrutural do olhar se alia ao amor apaixonado pela natureza brasileira. Esse domínio do olhar, Jorge Eduardo o deve incontestavelmente à sua formação de arquiteto. Nas diversas vistas das cidades litorâneas do Nordeste do país (Ladeira da Misericórdia, em Olinda; Forte dos Reis Magos, em Natal), as linhas modernistas dos arranha-céus no fundo contrastam com a urbanização tradicional do primeiro plano: uma discreta, mas eficiente chamada à ordem para as realidades de nosso tempo. A presença colonial e a afirmação da energia dos bairros comerciais não se constituem em dois mundos estanques, são as duas faces de uma mesma realidade que o olhar abarca em sua totalidade. A qualidade global dessa coexistência é a verdade estrutural do Brasil. Mostrá-la sob outro ângulo seria mentir. As imagens de Jorge Eduardo não mentem. Quando a tradição manifesta a sua plena coerência, o pintor a exalta sem receios, como podemos ver nas cenas urbanas de Ouro Preto ou da Bahia: os ângulos de visão são calculados de maneira a realçar o perfil ou a tessitura arquitetural em relação ao declive do terreno e à planimetria contrastante das curvas de nível. E, quando o local é propício, essa ordem da perspectiva reflete a perfeita harmonia orgânica de uma visão racionalista do alinhamento estrutural (as árvores da Avenida Koeller, em Petrópolis; as fachadas das casas refletidas em Reflexos no Capibaribe, em Recife). Quando, por outro lado, a modernidade explode no dinamismo do tráfego urbano, o olho de Jorge Eduardo registra a pletora energética com a impiedosa minúcia dos fotorrealistas americanos (Avenida Paulista, Marginal do Tietê, São Paulo). Mas é, sem dúvida, quando ele exalta a sensualidade da natureza tropical em suas cenas de praia ou de pesca, ou ainda nas suas paisagens urbanas sob a chuva, que o diálogo do espectador com a imagem se torna mais intenso. As suas visões da floresta amazôni-ca evocam a minha lembrança da subida histórica do Rio Negro em 1978, em companhia de Franz Krajcberg e Sepp Baendereck. Elas ilustram perfeitamente o potencial globalizante desse “naturalismo integral” que foi objeto de meu manifesto de 4 de agosto de 1978. Reencontro nessas aquarelas o estremecimento do meu contato com uma natureza excepcional, o choque amazônico que desencadeou em mim um salutar questionamento de todo o meu sistema perceptivo. Nos últimos anos, Jorge Eduardo percorreu o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, vindo a ser o seu historiógrafo e repórter visual, um pouco à maneira dos gravadores e desenhistas que acompanharam os enviados da corte de Lisboa, que faziam o reconhecimento do território e do estado de seus rincões, desde a chegada de Cabral ao Brasil, em 1500. Na véspera da celebração dos 500 anos do descobrimento, o aquarelista Jorge Eduardo tornou-se uma referência nacional. Ele pintou para o Palácio da Alvorada, em Brasília, uma bandeira brasileira gigantesca, utilizando a técnica do trompe l’oeil, diante da qual, nas ocasiões importantes, o Presidente da República se dirige à Nação. Seu livro Aquarelas do Brasil se tornará um marco: a capa é ornamentada pela mais suntuosa vista frontal das cataratas do Iguaçu, imagem ao mesmo tempo única, exemplar e simbólica. Jorge Eduardo arquivista e mantenedor
do patrimônio visual da nação brasileira: este é o justo reconhecimento
do amor de um homem pelo seu país, grande e belo, que ele assume plenamente
através da inteligência do olhar. |