Janelas para o Rio - Sonhos com olhos abertos

O homem, desde a aurora dos tempos, a fim de proteger-se contra a hostilidade do meio ambiente, buscou refúgio em cavernas sombrias cujo acesso único facilitava a defesa. Contudo, contrariamente as espécies animais, cedo sentiu o desejo de iluminar seu habitat e torná-lo menos deprimente, decorando suas paredes com cenas da vida cotidiana como uma evocação do mundo exterior. Assim, pela necessidade inata da natureza humana que se afirma com a evolução da espécie, o homem evoluiu dos primeiros "graffiti" pré-históricos para os afrescos das casas pompeianas nas quais o "trompe-l'oeil" tinha uma dupla finalidade: abrir janelas imaginárias sobre as paredes cegas ao mesmo tempo valorizando-as com decoração. Durante todos os períodos da história até os nossos dias, esses gêneros de existência estética andaram juntos e, felizmente, restaram-nos sólidos testemunhos. Com efeito, o afresco ou o quadro, sejam quais forem o século ou a época a que pertençam representam, antes de tudo, o fruto dessa exigência da natureza humana que consiste em recriar luzes e espaços onde anteriormente não existiam.

Tudo isso não leva em conta as técnicas nem as escolas, seja que se trate de uma obra de Botticelli ou de Magritte, de Canaletto ou de De Chirico, de Rothko ou de Matta, de Paul Klee ou de Duchamp, cada artista, a seu modo, com sua técnica e sua linguagem, a estética do seu tempo refaz o mesmo caminho, e se os resultados parecem opostos, a realidade permanece a mesma: um sonho do espírito toma a dianteira sobre a realidade cotidiana.

Quem - diante dos muros vazios de um quarto, dos quais acaba-se de retirar os quadros (abstratos ou figurativos, antigos ou modernos, pouco importa), e cujo aspecto antes nos parecia normal - nunca experimentou essa sensação de opressão e de claustrofobia como se alguém tivesse murado as janelas desse quarto, subitamente reduzido?

Tudo isso não pode escapar a Jorge Eduardo, e é por essa razão que ele reforça em suas obras o sentido da janela e que, renunciando as molduras tradicionais, substitui-as por velhas portas e janelas recuperadas em demolições.

Nos anos 20, Duchamp já havia encontrado nos objetos da vida cotidiana a fonte de seus "ready made", retirando-os de sua função banal para colocá-los de forma original ao nível da obra de arte. Em Duchamp o ato criador concretizava-se no momento da escolha do objeto. Em Jorge Eduardo, ao contrário, a escolha da janela ou da porta entre os materiais de demolição nada mais é do que o começo de um longo processo criativo.
Os enquadramentos de suas janelas determinam espaços em que lhe seria impossível inserir qualquer (seja qual seja) paisagem. A pesquisa deve ser muito precisa senão a obra, em lugar de entrar no jogo do "trompe-l'oeil", seria reduzida ao estado de uma simples colagem. E é realmente, na escolha da paisagem a inserir e na qualidade pictural da execução que reside o ato criativo.

Jorge Eduardo, em suas janelas, consegue reconstruir e evocar a poesia de um Rio de Janeiro, o qual, por felicidade, ainda subsiste, mas que poucos dentre nós sabem recriar.

Suas janelas podem ser consideradas como os mais belas do Rio de Janeiro. Cada um de nós sonharia ter em seu quarto uma janela com uma vista semelhante.

Jorge Eduardo propõe, sugere, e nos ensina a ver; torna-se quase provocador quando procura fazer crer que, no fim de contas, o Rio não mudou muito desde 1892.

Bastará olhar para as duas janelas "Tempo 1" (1892), em tons esmaecidos de um cinza quase invernal, e "Tempo 2" (1984) com as cores luxuriantes de um país tropical.

E assim, pelo seu sonho de olhos abertos, ele nos incita a admirar, de suas janelas, paisagens aparentemente reais que não são, entretanto, outra coisa senão o fruto dos seus sonhos e de suas contemplações.

As janelas e as vistas do Rio de Janeiro de Jorge Eduardo possuem o mesmo mistério emblemático de uma realidade recriada e negada que Magritte colocou em certas obras suas, tal como o célebre quadro no qual domina um cachimbo, sob o qual o pintor escreveu, para marcar o contraste entre a realidade e o seu pensamento: "Isto não é um cachimbo."

Cláudio Bruni Sakraischik
Rio - Roma, março 1986