A obra de arte, seja ela uma pintura, um poema ou uma sinfonia, constitui a materialização, a expressão objetiva de sentimentos e estados de consciência, quase sempre motivados e estimulados por necessidades intrínsecas a todos os indivíduos, mas diversa em seus significantes e significados. É o que inferimos da obra de Jorge Eduardo Alves de Souza, cujas notas dominantes são a força paciente e a simplicidade, aliadas a grande capacidade de sentir a Natureza, ao mesmo tempo feérica e espontânea. Na verdadeira origem de seu ofício plástico, a emoção profunda, surpreendente na objetividade e espírito de síntese.

Como instrumento de expressão pessoal, a obra de Jorge Eduardo não se destina, apenas, a auto-revelação ou, em outras palavras, não se ocupa exclusivamente das emoções ou pormenores particulares. Reflete, isto sim, em sentido muito amplo, uma visão muito sua de objetos, acontecimentos e situações comuns a toda Humanidade. E é a genialidade do artista que os tira do lugar-comum, da banalidade, pelo enfoque original que 1hes dá, pois capta o importante neles existente. debruça-se sobre a Natureza e com paciência analisa tudo quanto nela existe, mostrando-a com suavidade de colorido e composição equilibrada. Na série "Janelas", Jorge Eduardo, a manei- ra de Proust, foi fundo, envolvendo-a numa ambiência cultural da qual ela é parte integrante. Maneira sutil, a nosso ver, de denúncia e protesto. Daí a veemência de sua obra, na qual o espaço visual emoldurado surge com grande dignidade e revela uma visão madura de problema sério e que nada tem a ver com saudosismo. Sim, com a sobrevivência de nossa própria vida, pois que se refere à preservação da natureza e ao humano que lhe fica próximo, impiedosamente castigado.

Através de discurso que flui no sentido de captar e envolver o observador, Jorge Eduardo, por meio de cuidadosa escolha do vocabulário, recria tecnicamente assuntos desgastados. Se a nota dominante, como já dissemos, é a força paciente do artista que recria, o esteio que suporta toda sua obra é a aliança tácita - austera mas amorosa - entre a Natureza e o homem que a enfrenta.

Já na série das "Águas", a sua mestria na arte de captar o imponderável, o momento fugaz do transitório, em que onda, transparência, reflexo se combinam num lampejo de eternidade. A beleza da matéria pictural, ora densa, ora fluida, veste a imagem captada em pormenor, ao mesmo tempo figurativo em sua essência profunda, e conjectural pela forma rica em sugestões plásticas. Figurativo ou abstrato, quem sabe?

O importante é que Jorge Eduardo em seu amor pela Natureza, como criador que é, não se detém apenas na mera contemplação: sabe que ela está sempre ávida em receber sementes que se transformarão em frutos...

Alcídio Mafra de Souza
julho de 1982